Sobre as manobras da NATO
Nota da Comissão Política do Comité Central do PCP
4 de Fevereiro de 1975

 

1. É conhecida a posição do PCP, constante do seu Programa, acerca da NATO e da participação de Portugal na organização atlântica. Tal posição confere ao PCP particular autoridade para afirmar que, após o 25 de Abril, na complexa situação nacional e internacional, seria particularmente perigosa para a jovem democracia portuguesa uma política precipitada e aventureirista em relação à NATO. O PCP tem sublinhado que a resolução deste problema de alto interesse nacional deverá ser considerado com o mais alto sentido de responsabilidade no quadro da solução dos problemas mais amplos do desanuviamento, da segurança europeia e da paz mundial.

2. Enquanto Portugal fizer parte da NATO, são inevitáveis manobras com participação portuguesa. Entretanto, no presente momento político, tem de considerar-se completamente inoportuna a realização de manobras da NATO em Portugal. Numa situação caracterizada por certa tensão, por uma campanha de calúnias procurando fazer crer na iminência de um «golpe comunista» e de «guerra civil», a vinda a Portugal de forças navais da NATO e exercícios que incluem bombardeamentos aéreos simulados, levantam na população justificadas apreensões. Objectivamente consideradas, as manobras aparecem como uma forma de pressão na situação política portuguesa.

3. Sublinhando estes aspectos, o PCP afirma que, na complexa conjuntura actual, quaisquer incidentes com marinheiros em visita à cidade e desarmados poderiam adquirir carácter provocatório em que a reacção estaria altamente interessada.

O PCP adverte a população de Lisboa contra manifestações anunciadas com pretextos diversos para a zona próxima do Tejo e zonas centrais no dia em que está prevista a visita à cidade pelos marinheiros da NATO. A intenção dessas manifestações parece ser provocar perigosos confrontos.

Embora tivesse sido desejável que os marinheiros se mantivessem a bordo, o PCP entende que no caso de se verificar a sua saída a terra, desarmados e em passeio, a população deveria procurar não hostilizá-los, mas, sempre que possível, explicar-lhes a situação em Portugal, interessá-los no apoio ao povo português e dar-lhes mesmo recordações alusivas ao novo Portugal democrático.

4. As tentativas conspiratórias da reacção interna, coadjuvada por grupos provocatórios pseudo-revolucionários e apoiada pela reacção internacional, têm fracassado e continuarão a fracassar. O povo português tem pleno direito a decidir do seu próprio futuro. As liberdades serão defendidas, a democracia consolidada, um novo regime instaurado segundo a vontade popular livremente expressa. Confiança, firmeza e serenidade são essenciais para desmontar as conspirações reaccionárias e assegurar o prosseguimento do processo democrático.