
Bento de Jesus Caraça é hoje uma figura largamente conhecida como intelectual não elitista que marcou o curto tempo em que viveu com notáveis intervenções humanistas, culturais, pedagógicas e cívicas. Bem se destacando de igual modo o papel que teve na luta antifascista e pela Democracia, rumo a uma sociedade sem exploradores nem explorados e a um mundo sem imperialismos e de Paz.
Passadas décadas de quase silêncio imposto pelo regime derrubado com a revolução de 25 de Abril, tem-lhe desde então sido feita finalmente pública justiça e as homenagens de várias índoles têm-se sucedido.
Por outro lado, o estudo do seu pensamento e da sua acção - cuja densidade, para além da carreira académica, uma vida breve apenas lhe permitiu evidenciar em cerca de escassos vinte anos - tem vindo igualmente a penetrar cada vez mais, como se impunha, nos meios científicos e universitários. Com as perspectivas de distanciamento e rigor que os caracterizam ou devem caracterizar, embora também com uma ou outra falta de objectividade.
Entretanto, o seu grande exemplo de cidadão nos mais diversos domínios não dispensa ainda uma certa dose de afectividade e, mais que isso, a exigência de maior popularização desse exemplo - de quanto disse, escreveu e fez.
Até porque muitas das respostas a vários problemas da actualidade continuam a passar por aí.
Num rápido artigo para o Avante! e entre os muitos outros aspectos que poderiam seleccionar-se aqui, ocorre naturalmente começar por distinguir a militância política, e em especial a de comunista, que ele tão abnegadamente soube assumir.
A par de uma postura ideológica marxista bem visível em inúmeros dos seus escritos, a sua ligação orgânica ao nosso Partido está inequivocamente demonstrada. Tal se patenteia pela expressa prova documental existente quanto aos anos de 1931-32 e, implícita mas óbvia, de 1936, bem como quanto a anos posteriores e até à morte pelos testemunhos pessoais directos e publicitados de destacados dirigentes do PCP, alguns ainda vivos e que com ele mantiveram o respectivo contacto partidário. Naturalmente, com períodos mais ou menos intensos e contínuos, ou de que não ficou registo, como era próprio da clandestinidade.
Tudo isto está explanado em vários estudos vindos a lume, inclusive de forma mais sistemática e desenvolvida num livro que publiquei há menos de um ano, não podendo já ser posto seriamente em dúvida.
E acrescente-se agora a recentíssima revelação de um outro documento de 2/2/1947, da autoria de um possível funcionário do Partido Comunista Yugoslavo e que, em termos alternativos mas abrangentes, aponta também nesse sentido, de início não explicitado mas com referência logo ao ano de 1946 - cf. Jorge Santos Carvalho, "A Legação Yugoslava e a oposição antifascista portuguesa (1945-48)", na revista Vértice, n.º 98 (II), Nov.-Dez./2000, pp. 68 e 73n.
Por seu turno, uma outra revelação igualmente documentada neste mesmo artigo (pp. 64 e 72n) - segundo a qual o físico Manuel Valadares era o elemento de ligação do PCP com aquela missão diplomática em Portugal antes de vir a fixar-se em Paris - bem clarifica e reforça o significado, como actividade no quadro do Partido, de um outro facto: o envio de duas colecções do Avante!, feito por Caraça, alguns meses depois, para aquela cidade e para aquele cientista como ficou explicado a p. 66n do meu já referido livro.
Há todavia aspectos concretos de actuação que não foi ainda possível aprofundar ou trazer a público e que mereceriam decerto o afinco dos investigadores. Estão inventariadas, por exemplo, diversas organizações democráticas nos primórdios do salazarismo e outras posteriores, inclusive de apoio aos prisioneiros nos campos de concentração nazis e a foragidos das perseguições nazi-fascistas, nas quais Caraça participou ou colaborou.
Tive oportunidade de, entre vários outros assuntos mais extensivamente tratados, fazer uma abordagem sucinta a tal respeito.
Mas quanto a muitos pormenores pouco se sabe, salvo no que em parte concerne
à Liga Contra a Guerra e o Fascismo, à Frente Popular Portuguesa
e sobretudo ao MUNAF e ao MUD.
Será possível averiguar algo mais a propósito das aliás
efémeras ligas do tempo da Ditadura Militar? Ou mesmo das outras, já
em pleno Fascismo?
Poucos meses decorridos, o tempo vai demonstrando parecer que sim.
É o caso do mencionado artigo de Vértice, em que a pp. 64-65 e 73n se desvendam relações de Caraça e outros antifascistas com a Legação da Yugoslávia em Lisboa no imediato pós-guerra, frequentada aquela também por representantes de algumas das aludidas organizações internacionais antinazis, e ainda correspondência a ele e a Manuel Mendes enviada por Armando Cortesão, ao tempo exilado em Londres depois de uma fase inicial em Madrid (diga-se até que devido a fuga de Coimbra em 1933, por decisivo envolvimento no jornal republicano clandestino A Verdade).
Encontrar-se-ão os originais ou rascunhos integrais dessas cartas nos espólios dos destinatários ou do remetente?
Também só há meses é que vim a tomar conhecimento - e para tanto posso apoiar-me em cartas recebidas de Henrique Chicó e Levy Baptista - de que depois do 25 de Abril, e no decurso de contactos entre a URAP e congressos da Federação Internacional dos Resistentes, um dos antigos prisioneiros alemães dos campos de concentração enviou em sua representação uma mensagem de agradecimento aos antifascistas portugueses que os haviam auxiliado, designadamente com remessas de encomendas. Foi seu portador Levy Baptista, que a fez entregar a Maria Alice Chicó. E, pelo mesmo motivo, Honnecker, ao tempo presidente da RDA, condecorou-os anos depois na pessoa dela, que para o efeito se deslocou àquele país.
Como é sabido, Maria Alice Chicó desenvolveu actividades daquele tipo em proximidade e colaboração com Caraça.
Conviria decerto aprofundar estas questões. E é de perguntar: será ainda possível descobrir - mormente nos arquivos da antiga RDA e porventura nalguma instituição bancária suíça, como também consta, mas mais duvidosamente, ter por esse meio havido auxílios financeiros aos ditos prisioneiros - quaisquer facetas concretas dessas diligências, quem sabe se até alusões a Caraça como sucedeu no caso da Legação Yugoslava?
E quanto não poderá continuar a indagar-se no que toca à identificação de textos da sua autoria, acrescendo-os ao longo levantamento bibliográfico activo e passivo que também apresentei, mas sempre de desejável actualização?
Uma simples hipótese, à espera de prova pública: tenho motivos para admitir que, como vários outros documentos das apontadas organizações antifascistas, a proclamação inicial do MUNAF era do seu próprio punho. Bom seria que um ou outro camarada que possa estar em condições de o revelar - de resto já com depoimentos prestados a seu respeito - não deixasse de escrever elucidando detalhes como estes.
Noutras direcções, aliás, se podem encontrar novas fontes esclarecedoras da sua personalidade e da sua obra.
Em especial o seu próprio espólio, ao que parece finalmente consultável seja lá com que critérios for.
Assim é que felizmente está anunciada para breve a publicação de um livro acerca de Caraça e a Serra da Estrela, de que ele foi um habitual e apaixonado frequentador, tendo deixado inéditos vários apontamentos manuscritos referentes a este e a outros temas, e que o autor dessa obra pôde utilizar.
Tal como também será publicada em Seia uma brochura com as intervenções na Conferência sobre Caraça e a Matemática, ali efectuada em Junho de 2000. E é de esperar a muito próxima publicação de uma biografia e uma bibliografia com textos, anunciadas pela CGTP há uns três anos.
Já agora, e sobretudo a título de curiosidade, aqui fica ainda a modestíssima notícia de um desconhecido e pequeno inédito seu, a que também só há meses tive acesso e cujo original se encontra na Casa-Museu Abel Salazar.
Trata-se de um cartão manuscrito, ao que parece dirigido a este último e em que escreveu apenas o seguinte:
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Meu prezado Amigo. Bento Jesus Caraça.
Sem data, é todavia fácil fixá-la em 1945 ou 1946 - no pressuposto de ser aquele o destinatário, como o inculcam o respectivo teor e o facto de figurar no seu espólio - porquanto no timbre existente no verso consta como morada a Rua Almeida e Sousa e é sabido que o seu subscritor só para aí terá ido residir em Dezembro de 1944, certo sendo também que o bem conhecido histologista e artista faleceu em 29/12/1946. Tanto quanto alcancei verificar, nessa época havia vários indivíduos com aquele nome (e outros apelidos intercalares), que aparecem então ou mais tarde escrevendo publicamente. Um pelo menos era poeta, de verdadeiro nome Luís Chaves de Oliveira, mas vindo a publicar e a ser co-director da revista de poesia Távola Redonda com o pseudónimo de "Luiz de Macedo". Era ou fora estudante de Ciências Económicas e Financeiras, em que se licenciou, assim talvez aluno e próximo de Caraça. Apesar de este o tratar já por "Dr." e dever ter então apenas 20 ou 21 anos, seria ele quem buscava a referida "colaboração artística"? Não detectada aparência concreta desta, terá Abel Salazar, que em breve viria a falecer, chegado a ter ocasião para ela? Porventura, constituirá isto uma mera bizantinice literário-artísitica. Mas valendo como pequeníssima amostra do muito que suponho ser ainda viável perscrutar no legado intelectual e cívico de Bento de Jesus Caraça. Neste caso, a ajuda a um jovem poeta - aquele, quiçá outro? -,
à semelhança de situações idênticas e também
documentadas. Bem hajam pois todos os seus promotores - de diferentes coordenadas institucionais, sociais, culturais e mesmo políticas. Que sejam desde já do meu conhecimento e a efectivar ou a publicitar entretanto, importa registar pelo menos: a CGTP-IN, associada a várias entidades universitárias, culturais e/ou autárquicas de Lisboa, Vila Viçosa, Redondo, Setúbal e Porto, com um vasto programa de realizações; os CTT, emitindo finalmente um selo com a efígie de Caraça, a par dos de outras figuras notáveis, embora em folhas conjuntas especialmente destinadas a coleccionadores e portanto com divulgação mais restrita que a desejável; o CEIS 20 (Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, da Universidade de Coimbra), mobilizando mais apoios científicos, tendo várias actividades programadas como uma conferência-debate a ter lugar antes do verão e projectando fazer ainda este ano a publicação de um primeiro volume em edição crítica das suas obras completas; o próprio Avante!, organizando o caderno a que o presente escrito se destina; os autores dos outros quatro livros atrás anunciados; os dinamizadores de outras acções autárquicas e editoriais, em parte já aludidas, em Seia, São Romão e Canas de Senhorim; os de idênticas iniciativas locais, como no Alandroal, na Baixa da Banheira e na Moita, senão outras; e talvez ainda um pequeno acto toponímico em Coimbra, previsto e devido há mais de uma dúzia de anos. Bem se poderá concluir por conseguinte que Bento de Jesus Caraça continua a ser uma permanente e estimulante fonte de estudo e acção. No fundo, uma fonte de luta pelo avanço da Democracia por cujos múltiplos valores ele próprio lutou. Uma democracia com regras formais sempre defendidas e reforçadas, não só e necessariamente representativa e participativa mas também e cada vez mais substantiva. No sentido de que estabeleça e assegure realmente os diversificados direitos correspondentes a tais valores. Assim saibamos todos envolver as novas gerações nesse estudo, nessa acção, nessa luta! Coimbra, 1/4/2001 |