Intervenção de Jerónimo de Sousa, Secretário-Geral

7ª Assembleia da Organização Regional de Aveiro

A todos os delegados e convidados presentes nesta nossa 7ª Assembleia da Organização Regional de Aveiro do PCP apresento as mais calorosas saudações e votos de que as decisões que acabaram de tomar se expressem num profícuo e empenhado trabalho de militância em defesa dos trabalhadores, das populações e do desenvolvimento deste importante distrito do nosso país.

Realizamos esta Assembleia num momento em que se agravam de forma acentuada as condições de vida dos portugueses. O governo do PS prometeu uma mudança para melhor mas, fora a propaganda, o que os portugueses sentem, particularmente os que vivem do seu trabalho, de uma reforma ou de um pequeno rendimento de uma actividade, seja na agricultura, seja no comércio ou nas pescas ou outra qualquer, é o acrescentar em cima das dificuldade que já têm, novas dificuldades, sempre em crescendo.

No início eram os inevitáveis sacrifícios, em nome de um défice orçamental que inchou para justificar o brutal ataque aos salários, aos direitos dos trabalhadores e das populações. Brutal ataque aos serviços públicos, como foi o caso do direito à saúde aqui no distrito de Aveiro. Sacrifícios que uma maioria pagou, enquanto outros amealhavam escandalosos lucros, agora já sem a justificação do défice. E, até se vangloriam que esse é um problema resolvido, mas os sacrifícios continuam e os portugueses já se interrogam onde é que isto vai parar com o brutal e escandaloso aumento do custo de vida.

Esta semana foram novamente os combustíveis e com eles novos anúncios de aumentos dos transportes e de outros serviços e produtos essenciais. Depois de um ano de sistemáticos aumentos de produtos alimentares, neste primeiro trimestre de 2008, aí temos um novo salto nos preços dos alimentos que atingem particularmente as famílias de menores rendimentos. Em relação aos combustíveis, os aumentos são um escândalo, o mesmo em relação à energia.

Temos vindo a colocar ao governo um conjunto de questões que até hoje continuam sem resposta, ou melhor, com a resposta de quem quer continuar a defender os interesses das grandes empresas petrolíferas em vez dos interesses das pessoas e da economia nacional – a resposta de que é um problema do mercado. Há muito tempo que o governo sabe, através dos relatórios da Autoridade da Concorrência, que os preços de venda dos combustíveis – gasóleo e gasolina – são muito superiores à efectiva subida dos preços do barril de petróleo em euros. O próprio Ministério sabe, através dos dados da sua Direcção Geral de Energia e Geologia (DGEG), que o preço em euros do barril de petróleo importado por Portugal aumentou apenas 1,5% em 2007. Contudo, no mesmo período, o preço da gasolina 95 aumentou 3,4%, a gasolina 98 4,1%, o gasóleo rodoviário 3,5% e o do gasóleo para aquecimento 7,9%. Ou seja, aumentos muito superiores aos do barril do petróleo.

A GALP desculpa-se com o peso dos impostos. Mas os dados da Direcção Geral de Energia desmentem tal facto. O preço da gasolina 95, sem impostos, era em Portugal superior ao preço médio da União Europeia 1,8% e em relação ao gasóleo era 2,2%. Este facto deu às petrolíferas, em 2007, um lucro extraordinário e inadmissível de 68,7 milhões de euros, num quadro de 777 milhões de euros de lucro líquido global.

Então porque é que o governo não actua? Porque é que os preços dos combustíveis têm que subir mais do que o do barril de petróleo? Porque é que o governo não intervém sobre o preço? O que é preciso mais para ver que há especulação e mais, especulação realizada de forma combinada, com o cartel petrolífero a funcionar à descarada com aumentos no mesmo dia, à mesma hora e com o mesmo preço.

Os portugueses podem agora também ver o resultado da política de privatizações deste governo do PS e dos governos anteriores, realizadas em nome da garantia de melhores preços e mais qualidade dos serviços, que a concorrência automaticamente garantiria. Afinal não garante nada, o que garante é domínio de alguns de um mercado que lhes dá milhões e milhões de euros de lucro de pura especulação.

Ma também outras situações, como é o caso da energia eléctrica e das suas tarifas. Temos assistido a um aumento das tarifas eléctricas muito acima da inflação em prejuízo da competitividade da economia portuguesa, mas também em prejuízo do consumidor doméstico, mesmo quando a empresa dominante a EDP, teve lucro líquido de quase mil milhões de euros em 2007.

Nos combustíveis o problema não é de mercado, mas o do poder de uma empresa que domina o mercado em cartel com as multinacionais. O país ficou sem o controlo de um sector estratégico para o desenvolvimento do país, entregaram de “mão beijada” um património fundamental para defender os interesses dos portugueses e agora vêm dizer-nos que o governo não pode fazer nada. Não pode? Pode mas não querem.

Alguns já vão dizendo, perante o derrapar da situação económica e a degradação da situação social, que “os governos já não mandam nada”, os mesmos, aliás, que estão sempre a mandar o governo cortar nos direitos sociais e nos salários dos trabalhadores. De facto, alguns governos já não mandam nada, são paus mandados pelo grande capital e pela sua estrutura e instrumentos de dominação económica e social onde se alicerça a política neoliberal dominante, como o mercado único e o primado da concorrência capitalista, a União Económica e Monetária, o Pacto de Estabilidade ou a liberalização dos mercados.

Alguns governos só parecem mandar nas políticas de moderação salarial. Quando se trata de impor políticas de moderação de lucros obscenos, de remunerações douradas da elite de administradores das empresas públicas e privadas a moderação é um sacrilégio contra o “sacro santo” mercado.

Tal como para por fim aos off-shores, por onde passam e reconhece que passam as manigâncias do grande capital financeiro e dos grandes senhores do dinheiro. Não só não acabam com este escândalo como estão sempre disposto a abrir os cordões à bolsa em incentivos fiscais aos milhões que correm nos off-shores.

O funcionamento do mercado já não conta quando se trata do Estado intervir para salvar a banca ou as grandes empresas da falência. Ainda agora, perante a crise financeira do imobiliário, foram e são milhões e milhões de euros para garantir a liquidez do sistema bancário e para comprar “papel desvalorizado” de alguns bancos afundados na crise da sua própria especulação.

Neste caso, os donos da economia portuguesa e os seus servidores e favoritos, já não se indignam com o gasto dos impostos dos contribuintes ou melhor dizendo com os impostos de quem trabalha que são aqueles que mais pagam impostos. Aqui impera o silêncio, o silêncio hipócrita dos neoliberais e dos defensores do menos Estado. Não querem que se saiba que o Estado nunca é neutro, que está sempre ao serviço de uma classe e que aqui, no nosso país, o governo PS/Sócrates está ao serviço dos poderosos.

Preocupante é a quebra do poder de compra dos rendimentos do trabalho, particularmente evidente neste último ano e neste primeiro trimestre de 2008 com o aumento, nomeadamente dos produtos alimentares. Aumentos que são um autêntico escândalo e que se acumulam e se juntam a outros que cada vez mais pesam no orçamento familiar, particularmente dos jovens casais como é o caso dos custos da habitação.

Em relação aos produtos alimentares assiste ao silenciamento das verdadeiras causa da situação a que se chegou e ao “sacudir da água do capote” dos seus principais responsáveis e que andaram a defender como arcaico o conceito de soberania alimentar, isto é o direito de cada país garantir a sua segurança alimentar.

Hoje estamos a braços com aumentos preocupantes de preços bens alimentares. Aumentos como os do Leite no último ano, mais 74%, do arroz 71% ou 34% para a farinha, mas também óleos de marca 36%, as massas 34%, 24% nos ovos. Aumentos num contexto de três anos consecutivos de redução dos salários reais médios e de cerca de dois milhões de portugueses no limiar da pobreza. Estes aumentos são um drama para milhares de famílias aqui em Portugal e no mundo, com particular destaque para os cereais!

E o espantoso é ver como os responsáveis políticos pela situação assobiam para o lado, inventando desculpas de mau pagador e “esquecendo”, ou melhor, procurando que os outros esqueçam, os autores das políticas económicas e agrícolas que nos conduziram à escassez alimentar ou pura e simplesmente á especulação desenfreada dos preços ao consumidor!

Sim, porque os preços ao produtor, em muitos casos até têm descido! Perguntem aos produtores de leite de Aveiro, aos produtores de carne ou de batata, se aquilo que lhes pagam tem subido!!! Ou pelos menos se tem subido na proporção dos aumentos ao consumidor!

E isto acontece, quando os factores de produção agrícolas trepam a pique! Os responsáveis pela liberalização do comércio agrícola na OMC, pelas políticas ruinosas contra a produção e a agricultura familiar da PAC, agravadas com as reformas de 92, 99 e 2003 acham que nada têm a ver com a situação. Os responsáveis pelas ajudas pagas aos grandes proprietários para terem terras a monte, o chamado set-aside; (em 1995 o país produzia 50% dos cereais que consumia, hoje produz 20%!). Acham que não tem nada a ver com a situação os responsáveis pela liquidação da pequena produção leiteira. Nos últimos dez anos abandonaram a produção leiteira mais de 65 000 dos cerca de 80 000 produtores registados em meados da década de noventa.

Acham que não tem nada a ver com a situação os responsáveis pela política de abandono do mundo rural e da floresta, de facto os responsáveis políticos pelos incêndios florestais, assumem agora o papel de anjinhos papudos inocentes.

Aparentemente os sucessivos governos do PSD/Cavaco Silva e o seu Ministro da Agricultura Arlindo Cunha, do PS/Guterres e o seu Ministro Capoulas Santos, dos Governos PSD/CDS-PP e dos seus Ministros Sevinate Pinto e Costa Neves, e do actual PS/Sócrates e do seu Ministro Jaime Silva, o pior dos piores, conseguindo bater todos os outros na destruição da agricultura nacional, não tem qualquer responsabilidade, nem pela política agrícola dos últimos anos em Portugal, nem pela PAC e reformas que sempre apoiaram! Como a culpa não pode morrer solteira se nos descuidamos ainda vão dizer que deve ter sido o PCP, que sempre combateu essas políticas em Bruxelas e em Portugal, o responsável, quem formou governo, quem nomeou o ministro da agricultura! Ou que deve ter sido o PCP, quem dirigiu as negociações na OMC, quem liberalizou e desregulamentou a circulação do capital financeiro, quem permitiu a orgia da especulação financeira internacional, a política dos agrocombustíveis e outras políticas responsáveis pela escalada dos preços do arroz, trigo, milho, soja, leite, os lucros fabulosos das grandes empresas do comércio agroalimentar e agroquímico.

Estes responsáveis eram aqueles que há três décadas atrás, agitando o papão do comunismo, assustaram os pequenos e médios agricultores dizendo que nós lhes queríamos tirar as suas explorações. Afinal, foram e são eles, as suas políticas, as suas medidas, a banca, o grande capital que os levou à ruína e ao abandono da produção!

Basta de hipocrisia! Basta de mentira! Assumam as suas responsabilidades e mudem as políticas!

Não utilizem a desgraça e a ruína da agricultura e de países inteiros, para acentuar as políticas que são a principal causa da situação, como vemos defender o responsável da OCDE ou alguém do PS, como o António Vitorino, que acham que a solução é mais liberalismo, mais competitividade, mais comércio agro-alimentar na mão das multinacionais.

Com a consciência serena de quem sempre defendeu outra política agrícola para Portugal e para a União Europeia, o PCP continua o combate por outra agricultura. Uma agricultura que só existe com agricultores, uma agricultura sem a qual não há mundo rural e onde sem mundo rural não há desenvolvimento, o que exige uma política agrícola que garanta:

A soberania alimentar. O direito a produzir e a proteger a sua agricultura, com a definição das políticas agrícolas e alimentares nacionais, de acordo com as potencialidades agrológicas, e conforme com as necessidades do País. A soberania alimentar é um direito básico e universal de todos os povos e a produção agrícola uma variável estratégica da independência nacional, pelo que é necessário conseguir uma maior taxa de cobertura do consumo nacional pela produção nacional;

A segurança alimentar. Uma produção agrícola e pecuária (e processos de conservação e transformação) que assegure produtos de qualidade e sãos.

Os rendimentos dos agricultores e emprego e salários dos trabalhadores agrícolas. Rendimentos e salários dos activos agrícolas que assegurem níveis e qualidade de vida idênticos aos das outras camadas sociais, com uma preservação do tecido social agrícola, assente numa forte rede de explorações agrícolas familiares, que contribua para conseguir os equilíbrios territoriais e demográficos das regiões, e travar ou atenuar os processos de desertificação em curso.

A coesão económica e social. As políticas agrícolas e outras devem assegurar a convergência económica e social de países e regiões, travando o agravamento das assimetrias regionais, a desertificação e perda de actividade agrícolas de muitas áreas agro-rurais, o alargamento do fosso de rendimento e qualidade de vida entre estratos sociais e entre populações urbanas e rurais.

Se a estes aumentos dos bens alimentares acrescentarmos outros de consumo popular e os que aí vêm, novamente, como os que já foram anunciados nos transportes, os aumentos dos juros e dos spreads, ou seja das margens de lucro dos bancos no crédito, a vida dos portugueses está transformada num “ tormento” e o governo quer transformá-la num inferno.

Nada fazem para dar resposta à sistemática perda do poder de compra dos salários e das reformas, antes têm agido para camuflar a real dimensão do valor da inflação e do seu impacto na vida das famílias de menores recursos. O governo há muito sabia que as suas previsões sobre a inflação não tinham qualquer credibilidade, apenas funcionavam como travão ao aumento dos salários. Reconheceram agora, que a inflação será maior que a prevista, mas não tiram qualquer consequência desse facto visando a revalorização dos salários e das reformas.

O governo sabe também há muito que o valor da inflação oficial (INE) é fictícia. O cabaz de compras que determina o valor da inflação é inadequado, nomeadamente com a subida em flecha das despesas com a habitação, água, electricidade e gás, mas o governo continua a fazer que não percebe que esta situação significa também mais uma forma encapotada de promover o empobrecimento dos trabalhadores e dos reformados.

O governo sabe ainda que, particularmente os reformados e os trabalhadores com baixos salários são duplamente penalizados, porque grande parte dos seus rendimentos são gastos na alimentação e na casa, onde os exagerados aumentos destes últimos tempos pesam mais. É por isso também que nós dizemos que é preciso não só revalorizar salários e pensões, como medidas fiscais que aliviem os baixos rendimentos e os rendimentos do trabalho, nomeadamente em sede de IVA e IRS como o propusemos já na Assembleia da República.

Com este governo do PS e em resultado da sua política de sistemático e deliberado ataque aos rendimentos do trabalho, Portugal tornou-se mais injusto e mais desigual com três anos consecutivos de quebra dos salários reais. E mais injusto quando, como acontece aqui, no distrito de Aveiro e se constata na Resolução Política da VII Assembleia que 90% dos salários dos trabalhadores por conta de outrem estão abaixo da média nacional.

Em 2006 quebra média dos salários foi de 0,9%. Em 2007 de 0,6% e em 2008, como o reconhece e prevê a Comissão Europeia, os salários cairão novamente. E mais cairão se o governo do PS conseguir levar para frente e concretizar os seus negros desígnios de alterar para pior o Código de Trabalho.

Todos os dramas a que assistimos assumirão uma nova e mais grave dimensão.

Não se pode dissociar o agravamento da situação em que os trabalhadores, os reformados, o povo português e o país se encontram, das consequências que teria para a nação e aplicação das malfeitorias que são propostas pelo Governo.

José Sócrates, porque quer fugir ao debate em relação às suas propostas concretas e mistificar os seus reais propósitos, porque não quer que se saiba a crueza do cerne do que é proposto, passou a acusar o PCP de estar contra a concertação social, como se esse fosse o problema e não as suas propostas.

José Sócrates, faz públicas e fingidas declarações do seu total empenhamento na negociação e na concertação. Aliás, quem o houve falar, pensaria que o governo é um elemento neutro que apenas apresenta propostas para a negociação.

Mas é bom que se diga que por trás de tanta apologia da negociação e da concertação está a arrogância, a ameaça e a tentativa de instrumentalização da concertação social. Quer sair da concertação com um certificado para transformar a Assembleia da República num cartório de reconhecimento da assinatura!

José Sócrates e o seu governo não estão na concertação para obter um acordo entre patrões e sindicatos. Estão na concertação para impor o essencial das suas propostas que são as propostas que melhor servem ao patronato. O que não diz José Sócrates disse o Ministro do Trabalho ao colocar em cima da mesa as suas propostas. Disse de antemão que havia quatro questões inegociáveis. Exactamente aquelas que significariam um rude golpe nos direitos dos trabalhadores e nas suas condições de vida, nomeadamente as suas propostas em relação aos despedimentos, à caducidade da contratação colectiva e em relação à liberalização dos horários.

Propostas que antes, no tempo do governo do PSD/CDS-PP com Bagão Félix considerava retrógradas e prometia combater. Estamos na realidade perante uma farsa. Perante uma campanha mistificadora que fala em negociação e concertação, mas está a pensar impor a sua opinião e a sua solução.

Uma campanha mistificadora que não pode ter outra resposta que não a luta dos trabalhadores. Luta que a CGTP-IN marcou para 5 de Junho em Lisboa e que, estamos certos que será, com o nosso contributo, uma grandiosa manifestação de repúdio e de protesto dos trabalhadores e trabalhadoras portugueses. Uma luta, uma batalha que não sabemos se vamos vencer, se os trabalhadores vão vencer, mas sabemos, com certeza, que perderemos se não a travarmos com todas as nossas forças.

Tínhamos dito que o tempo que resta do actual mandato do Governo do PS iria ser um tempo de acentuado declínio e de retrocesso em todos os domínios, nomeadamente no plano económico e social. Dissemos que no plano económico o ano de 2008 iria ser pior que o de 2007 e 2009 será mais um ano a fazer marcha-atrás. Infelizmente a situação ainda é pior do que aquela que afirmávamos.

O governo acaba de o reconhecer o que há muito todos sabíamos. O governo acaba de rever em baixa as suas previsões sobre o crescimento da economia. As verdadeiras consequências da sua política estão aí.

Nenhuma das metas e objectivos anunciados pelo PS de crescimento económico e mais emprego vão ser concretizados. mas tal como vínhamos avisando e prevenido, aí estão a passar a culpa da paragem e do retrocesso da economia nacional para crise internacional. E pior, a anunciar nova necessidades de fazer sacrifícios. Para o capital financeiro? Para os poderosos donos dos grandes grupos económicos? Para os gestores e administradores de grandes empresas, da banca e do Banco de Portugal?

Agora em nome do combate à inflação e desenvolvendo a mais cínica das argumentações, aí está o regresso do discurso da moderação salarial, que traduzido à letra quer dizer desvalorização dos salários. Cínica, porque lavados em “lágrimas de crocodilo” vêm, como carpideiras, manifestar preocupação com o impacto dos aumentos nos cidadãos de menores recursos, mas de seguida defendem a inevitabilidade da moderação dos salários para travar a inflação. Moderar é conversa fiada! Querem continuar a desvalorizar o salário.

O discurso oficial voltará à lenga-lenga dos sacrifícios para todos. Pela enésima vão dizer, como já estão novamente a fazer, que vão tomar medidas em relação aos paraísos fiscais, ao combate aos escandalosos salários dos gestores e aos lucros especulativos, mas no concreto quem paga são sempre os mesmos.

Descobriram agora, na Europa e em Portugal que o salário de um gestor é actualmente de um para 60 ou 80, quando há vinte anos era de um para vinte, para encenar uma púdica preocupação com tal situação e compor o ramalhete da justificação da política de moderação salarial.

Mas estes três anos de governo do PS não foram apenas anos a cortar nos salários, foram anos de crescimento do desemprego e de agravamento da precariedade com uma das mais altas taxas da Europa. São situações alarmantes aqui no distrito de Aveiro como o evidência a Resolução Política da VII Assembleia e particularmente dramáticas quando 2/3 dos trabalhadores desempregados não recebem sequer um subsídio de desemprego.

Este governo do PS é responsáveis pela mais alta taxa de desemprego dos últimos anos e pelo acentuar do fenómeno da emigração. Milhares e milhares de portugueses vão agora novamente à procura de emprego no estrangeiro. Anos também de ataque aos direitos à saúde, à educação e à segurança social dos trabalhadores e das populações.

Três anos de ofensiva contra o SNS e a impor uma política que tornou a saúde mais cara e com mais difícil acesso. Ofensiva que teve pela frente a luta de resistência do povo do distrito de Aveiro que daqui mais uma vez saudamos.

Três anos também de desvalorização da Escola Pública e de ataque aos professores e restantes profissionais que põem cada vez mais em causa o direito a uma formação de qualidade para todos. Na Resolução Política da Assembleia colocaram com muita enfase o problema do processo de Bolonha e os problemas inerentes à nova lei, que chamam, justamente, de desmantelamento do ensino superior público. São preocupações justas que todo o Partido acompanha. Este combate contra a captura do ensino superior público pelo privado é um combate central para garantir a democratização do acesso ao ensino superior.

Com este Governo e com esta política perde o país e perdem os trabalhadores e o povo. O país com este governo e com a actual política, a mesma que os partidos da direita PSD e CDS-PP aplicaram vai continuar a andar para trás com todos os problemas estruturais com que o país está há muito confrontado a manterem-se ou a agravarem-se. Somos um país cada vez mais dependente e endividado.

Ao contrário do que afirma o governo, o país está mais vulnerável e pior preparado para enfrentar o futuro. O governo fala muito da robustez da economia nacional, graças à sua política, mas ao primeiro abalo ficou à vista a consistência de tal discurso. Portugal foi o país que registou no inicio de 2008 o menor ritmo de crescimento e toda a perspectiva futura é de agravamento.

A situação não se pode explicar apenas com a crise internacional, esta é principalmente a consequência lógica de uma política que travou o investimento público, diminuiu o poder aquisitivo do povo, promoveu a financeirização da economia e a destruição dos sectores produtivos, como é o caso dos sectores tradicionais aqui em Aveiro, ou da Yazaki e da Rohde. Uma política que concentrou a riqueza e fez do controlo orçamental a primeira prioridade, em detrimento do crescimento económico e do emprego nestes últimos três anos.

Foi perante esta realidade e esta evolução que, por iniciativa do PCP, a Assembleia da República discutiu e votou uma moção uma moção de censura ao governo. Tratou-se de uma decisão do nosso Partido que julgamos oportuna e justa, já que ficou claro quem falou verdade ao país e quem tentou iludir a verdadeira situação em que o país se encontra.

É perante a falência desta política nós afirmamos a necessidade e urgência da construção um caminho novo alternativo e uma solução nova com o PCP e na convergência com todos os que tenham como real propósito promover uma ruptura com tal política.

Os problemas do país não se resolvem persistindo na política de direita e muito menos com mais guinadas à direita como o fez Sócrates e como o anunciam os novos candidatos à liderança do PSD.

O que o país precisa é de um verdadeira alternativa política de esquerda que ponha fim a trinta anos de rotativismo de alternância sem alternativa, entre PS e PSD com ou sem CDS. Uma verdadeira alternativa que só é possível com uma nova política e com o PCP. Verdadeira alternativa que se concretizará tanto mais cedo quanto o PCP se reforçar e maior for o apoio ao seu projecto de construção de uma democracia avançada para Portugal.

Desde o XVII Congresso avançámos na acção e intervenção do Partido, no reforço da sua organização e influência. Em Aveiro também em muitos aspectos, em organismos de empresas, na responsabilização de mais quadros, mais Assembleias de Organização, na venda do Avante, entre outros.

Avançámos, mas precisamos que mais camaradas assumam responsabilidades, que mais militantes desempenham tarefas regulares por pequenas que sejam, que se alargue a formação política e ideológica, se reforcem as organizações nas empresas e locais de trabalho, se dinamizem as organizações de base, se melhore a base financeira, particularmente no aumento da quotização. Problemas que os camaradas consideraram e decidiram com definição de novas metas e objectivos. Precisamos de um Partido com organizações profundamente e cada vez mais ligadas aos trabalhadores e às populações, às suas organizações e lutas, à resposta aos seus problemas e aspirações.

Avançámos no esclarecimento da situação dos inscritos, mas precisamos de continuar a dar resposta às milhares de situações por esclarecer. Avançámos na adesão de milhares de novos militantes, muitos deles jovens, mas precisamos de mais e mais militantes que tragam a sua experiência, criatividade e energia ao nosso Partido. O camarada da concelhia de Arouca dizia que a organização estava a andar, que eram poucos mas bons. Temos de continuar a trabalhar para sermos muitos e bons!

Avançámos na afirmação do “Avante” o órgão central do nosso Partido e no trabalho de informação e propaganda, mas precisamos de chegar com a nossa palavra a mais pessoas e a cada vez mais sítios, de alargar cada vez mais a difusão da imprensa partidária e a acção de informação e propaganda.

Mostrámos que é possível um PCP mais forte. Consolidámos grande parte desses avanços, mas temos insuficiências e dificuldades que não queremos, nem devemos esconder. Precisamos de ir mais longe no reforço do Partido para que este esteja em cada momento em condições de cumprir o seu papel sejam quais forem as condições em que tenha que intervir.

Estamos agora num momento de balanço e de relançamento do nosso trabalho com os trabalhos de preparação do nosso XVIII Congresso e no quadro do qual todo o nosso colectivo é chamado à análise, ao debate e tomar decisões da mais alta importância para a vida do nosso Partido e em todos os domínios da sua intervenção.

Daqui faço um especial apelo ao empenhamento de todos os camaradas para que participem no debate que se quer franco e aberto sobre os problemas do Partido e do seu reforço, da situação nacional e internacional, sobre os problemas da alternativa, sobre as questões essenciais para garantir um Portugal mais justo e mais democrático.

É com o contributo e o empenhamento de todos que conseguiremos um PCP mais forte, por Abril e pelo socialismo, para responder aos problemas e aspirações dos trabalhadores e do povo.

Somos uma grande força que com a energia que resulta das nossas convicções e projecto, transporta a bandeira da esperança e que mostra que Portugal não está condenado às injustiças e ao declínio. Somos uma força que combate a resignação e o fatalismo. Somos uma força que por todo o país se desenvolve uma actividade intensa, com muitos milhares de militantes a darem o melhor de si num exemplo de participação militante notável e única no panorama partidário português.

Não há Partido como o PCP, este partido da classe operária e de todos os trabalhadores. O Partido que conhece e sente os problemas e intervêm para os resolver. O Partido que actua para dar resposta á aspiração a uma vida melhor.

Este Partido portador do ideal e projecto de uma sociedade nova liberta da exploração e da opressão e que com uma determinação sem limites e uma inabalável confiança no futuro se entrega à concretização um país mais justo, mais democrático e mais desenvolvido.

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